
Para controlar o ouro e manter a economia funcionando, a Coroa Portuguesa criou diferentes estruturas. Elas se confundem, mas cada uma tinha função própria. No Brasil Colônia, o ouro das Minas Gerais transformou completamente a relação entre colônia e metrópole.
Para evitar contrabando e garantir a cobrança do “quinto”, Portugal instalou uma rede de fiscalização que ia da extração até a circulação. Assim nasceram as Casas de Fundição, responsáveis por transformar o ouro em pó em barras oficiais e seladas. Quando a economia cresceu e a falta de moeda virou problema, surgiram as Casas da Moeda, únicas autorizadas a cunhar dinheiro. Dentro delas funcionavam as oficinas monetárias, verdadeiras “linhas de produção” onde o metal virava moeda batida.
Em paralelo, a ganância e o imposto alto fizeram proliferar fábricas clandestinas, que desafiavam a lei e a pena de morte. Cada uma dessas instituições conta parte da história do ciclo do ouro e da formação econômica do Brasil.
Entender suas diferenças é entender como o ouro circulava, era tributado e, muitas vezes, sonegado.
1. CASAS DA MOEDA: ONDE SE CUNHAVAM MOEDAS OFICIAIS
As Casas da Moeda eram itinerantes. Mudavam de cidade conforme a produção de ouro e os interesses da Coroa.
PERÍODOS E LOCAIS DE FUNCIONAMENTO
Vila Rica – atual Ouro Preto, MG
Funcionou de 1724 a 1735. Atuava como Casa de Fundição e Moeda ao mesmo tempo. Foi a que mais cunhou moedas no Brasil Colônia nesse período, chegando a produzir mais que Lisboa e Rio de Janeiro juntas. Produziu os famosos “Dobrões” de 20.000 réis. Foi fechada em 1735.
Bahia – Salvador
Teve duas fases. A primeira foi de 1694 a 1698. Foi a primeira Casa da Moeda oficial do Brasil, criada em 8 de março de 1694. Em 1698 foi transferida para o Rio de Janeiro. A segunda fase começou quando foi reaberta em 1714, por causa do ouro das Minas. Funcionou durante parte do século XVIII. As remessas para Portugal vindas da Bahia, Rio e Vila Rica são citadas até a primeira metade dos anos 1700.
Rio de Janeiro
Também teve duas fases. A primeira foi de 1698 a 1700, quando a Casa “itinerante” saiu da Bahia e veio para o Rio. A segunda fase começou em 1703 e é permanente. Foi reaberta definitivamente em dezembro de 1702 por causa do ouro das Minas. É a que se tornou a Casa da Moeda do Brasil atual, fundada oficialmente em 8 de março de 1694.
Pernambuco – Recife
Teve a cunhagem holandesa entre 1645 e 1646, durante a ocupação holandesa no Nordeste. Depois, como Casa da Moeda oficial portuguesa, funcionou de 1700 a 1702. A Casa itinerante saiu do Rio em 1700, foi para Recife e voltou para o Rio em 1702.
Depois de 1735: só o Rio de Janeiro continuou cunhando moeda de forma regular. A de Vila Rica foi extinta e as outras viraram apenas casas de fundição/registro.
2. CASAS DE FUNDIÇÃO: O CONTROLE DO OURO EM PÓ
Casa de Fundição ≠ Casa da Moeda
O QUE ERAM
Repartições criadas para fiscalizar o ouro das Minas. Suas funções eram:
• fundir o ouro em pó ou pepitas trazidos pelos mineradores;
• retirar o “quinto”, imposto de 20% para a Coroa;
• transformar o restante em barras com selo real, peso, toque – pureza e numeração;
• emitir certificados para circulação legal do ouro. Ouro em pó sem o selo da fundição era considerado contrabando.
QUANDO E ONDE FUNCIONARAM
• Em Taubaté, SP, funcionou de 1695 a 1698. Foi a primeira tentativa e fracassou.
• No Rio de Janeiro, funcionou de 1703 a 1734. Acompanhou a Casa da Moeda.
• Em Salvador, BA, funcionou de 1714 em diante, junto com a Casa da Moeda reaberta.
• Em Minas Gerais, nas cidades de Vila Rica, Sabará, São João del-Rei e Vila do Príncipe, funcionaram de 1725 a 1735. Essa foi a 1ª fase e elas operavam junto com a Casa da Moeda de Vila Rica.
• Ainda em Minas Gerais, houve uma 2ª fase de 1736 a 1750, com o sistema da “capitação”, que cobrava imposto por escravo.
• Também em Minas Gerais, a 3ª fase foi de 1751 a 1808. Nessa fase voltou o sistema das Casas de Fundição até a chegada da Família Real.
• Fim: Em 1808, com a abertura dos portos, perderam sentido. Foram oficialmente extintas em 1832, já no Império.
Resumo prático:
• Casa da Moeda fazia moedas.
• Casa de Fundição “lavava” o ouro, cobrava imposto e transformava em barra oficial.
3. OFICINAS MONETÁRIAS: A “LINHA DE PRODUÇÃO” DA MOEDA
O QUE ERAM
Eram as “minifábricas” que executavam cada etapa da moeda: fundir metal, laminar, cortar discos, abrir cunhos e bater a moeda.
Existiam as oficinas artesanais/caseiras, que eram improvisadas, sem estrutura oficial, usadas quando faltava moeda.
E existiam as oficinas dentro da Casa da Moeda. A partir de 1694, cada Casa da Moeda era um conjunto de oficinas especializadas.
REGRA: TODA CASA DA MOEDA TINHA OFICINAS, MAS NEM TODA OFICINA VIRAVA CASA DA MOEDA.
QUANDO E ONDE FUNCIONARAM
• Em Recife, PE, funcionou entre 1645 e 1646. Era uma oficina holandesa que cunhou os “florins do Brasil”, primeiras moedas com a palavra BRASIL.
• Em várias localidades do Brasil, ocorreram acunhações “caseiras” nos anos de 1645, 1646 e 1654. Eram moedas artesanais feitas para suprir a falta de meio circulante, mas eram pouco confiáveis.
• Em Salvador, BA, a partir de 1694, funcionaram as oficinas da Casa da Moeda. Quando a 1ª Casa da Moeda foi criada, ela reuniu várias oficinas para fundir ouro, prata e cobre e cunhar as séries de réis.
• No Rio de Janeiro, em Recife e em Vila Rica, funcionaram oficinas itinerantes entre 1698 e 1735. Elas iam junto com a Casa da Moeda: Rio de 1698 a 1700, Recife de 1700 a 1702, Rio de 1702 em diante e Vila Rica de 1724 a 1735.
• Depois de 1735: as oficinas ficaram concentradas no Rio de Janeiro.
• Curiosidade: A oficina holandesa foi a única estrangeira no Brasil.
4. FÁBRICAS DE MOEDAS FALSAS: O CRIME DE LESA-MAJESTADE
O QUE ERAM
Oficinas clandestinas que produziam moedas e barras ilegais para fugir do “quinto” e lucrar. Era crime punido com morte.
O que faziam:
• fundiam ouro sem pagar imposto à Coroa;
• cunhavam moedas falsas com equipamentos roubados ou copiados;
• adulteravam o metal com cobre ou chumbo;
• cerceavam moedas verdadeiras, raspando as bordas para tirar metal;
• cobravam um “imposto” menor que o da Coroa para atrair mineradores.
ONDE E QUANDO FUNCIONARAM
A mais famosa foi a Casa de Moeda Falsa do Paraopeba, na Serra da Moeda, região de Brumadinho/Moeda, MG. Funcionou na década de 1720 até 1732. Era fortificada e armada. Tinha cerca de 100 homens, incluindo ex-funcionários da Coroa. Usava equipamentos roubados do Rio de Janeiro. Chegou a ter apoio do governador D. Lourenço de Almeida, que governou de 1721 a 1732.
Também existiram outras fundições clandestinas em Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso durante todo o século XVIII. Eram bem organizadas para acobertar o crime. A Coroa fazia “devassas” para descobrir e destruir.
Houve ainda falsários individuais por todo o Brasil, da Colônia até a República. No século XX, casos conhecidos foram o de Albino Mendes no Rio de 1906 a 1929, o de Georges Raimbault em Pelotas-RS de 1899 a 1900, e um caso em Bento Gonçalves-RS em 1941 com moedas de 5 mil réis falsas.
POR QUE SURGIRAM
Surgiram por quatro motivos principais:
• Primeiro, o imposto alto: o quinto de 20% mais as taxas tiravam muito ouro do minerador.
• Segundo a falta de moeda: ouro em pó era proibido de circular.
• Terceiro, o lucro: moedas adulteradas ou com “quinto” menor davam mais ganho.
• Quarto, a corrupção: autoridades locais às vezes apoiavam ou ignoravam.
COMO A COROA COMBATIA
A Coroa combatia de quatro formas:
• Criou o cordão serrilhado nas bordas das moedas em 1687 para impedir o cerceio.
• Usava carimbos e contramarcas para controlar moedas estrangeiras.
• Fazia “devassas”, que eram expedições militares para destruir as fábricas.
• E aplicava pena de morte, já que falsificação era crime de lesa-majestade.
AS 4 ESTRUTURAS
• OFICINA MONETÁRIA: era legal. Funcionava como a “linha de produção” da moeda, dentro ou fora da Casa da Moeda.
• CASA DA MOEDA: era legal. Era o conjunto de oficinas mais administração e controle de qualidade. Cunhava moeda oficial.
• CASA DE FUNDIÇÃO: era legal. Fiscalizava o ouro, cobrava o quinto e fazia barras seladas. Não cunhava moedas.
• FÁBRICA DE MOEDA FALSA: era ilegal. Sonegava imposto, adulterava metal e cunhava moeda clandestina.
A FABRICAÇÃO DE MOEDAS – COMO SE FAZIA UMA MOEDA NO SÉCULO XVIII – PASSO A PASSO
1. ENTRADA NA CASA DE FUNDIÇÃO E MOEDA
O minerador chegava com seu ouro em pó ou pepitas numa bolsinha de couro. Primeira parada: Mesa da Recebedoria.
• Pesagem bruta: O fiel da balança pesava tudo na frente do minerador e de um escrivão. Tudo anotado no “Livro da Receita”.
• Teste do toque: Com a pedra de toque, o ensaiador riscava o ouro e comparava a cor com “agulhas de toque” de 24, 22, 20 quilates. Assim sabia a pureza média.
• Fundição inicial: O ouro ia para o cadinho de barro refratário no fogo de carvão. Fundia tudo numa barra única para homogeneizar.
2. ENSAIO E O “QUINTO”
• Ensaiar de verdade: Tirava-se uma lasca da barra. O ensaiador fazia a “copelação” – derretia com chumbo para separar ouro puro. Aí calculava o quilate exato.
• Cobrar o imposto: Separava 20% do peso em ouro para a Coroa. Esse era o “quinto”. O resto era do minerador.
• Fundir a barra oficial: A parte do minerador voltava ao fogo com cobre/prata até chegar a 22 quilates – padrão das moedas portuguesas. Virava uma barra com selo real, peso, toque, número e data. Isso era a “barra quintada”. Só com ela o ouro podia circular.
3. OFICINA DE LAMINAÇÃO – VIRAR CHAPA
• Nova fundição: Se o dono da barra quisesse moeda, ela era refundida em “réguas” de metal.
• Passar no laminador: A régua ia para um laminador puxado por escravos ou animais. Passava várias vezes até virar uma chapa fina com a espessura exata da moeda. Erro aqui = prejuízo. Chapa grossa demais gastava ouro à toa.
4. OFICINA DE CORTE – VIRAR DISCO
• Cortar os “bolhões”: Com um cortador manual, tipo vazador de biscoito, cortavam discos redondos da chapa. Esses discos eram chamados de “bolhões” ou “planchetas”.
• Ajuste de peso: Cada bolhão ia pra balança. Se estivesse pesado, limavam a borda. Se estivesse leve, voltava pro cadinho. O peso tinha que ser cravado: um dobrão de 20.000 réis pesava 53,78g.
5. OFICINA DE BRANQUEAMENTO E BORDO
• Branqueamento: Os discos eram fervidos numa solução de sal e água-forte – ácido nítrico. Isso tirava o cobre da superfície e deixava o ouro com cor viva.
• Cordão na borda: Desde 1687, passavam o disco numa máquina de serrilhar. Fazia o “cordão” na borda. Servia para impedir o cerceio – gente que raspava ouro da borda das moedas.
6. OFICINA DE CUNHAGEM – A HORA DA BATIDA
• Preparar os cunhos: O abridor de cunhos gravava o desenho no aço, em negativo. Um cunho para a “cara” – anverso, com D. João V, e outro para a “coroa” – reverso, com as armas de Portugal. Desgastavam muito rápido.
• A batida: Colocava o bolhão sobre o cunho de baixo, fixo numa bigorna. O cunho de cima era encaixado. Um “moedeiro” batia com um malho de 5-7kg. Força bruta. Uma batida só tinha que transferir o desenho perfeito. Numa oficina boa, 3 homens batiam 2.000 moedas/dia.
• Controle final: O “provedor” pesava lotes por amostragem. Moeda fora do peso era derretida na hora.
7. SAÍDA
Entrega: As moedas eram contadas, ensacadas e entregues ao dono do ouro, menos a taxa de “braceagem” e “senhoreagem” – custos de fabricação e lucro da Coroa. Pronto: o ouro em pó virou dobrão, moeda de 4.000 réis, etc.
QUEM TRABALHAVA NUMA CASA DE MOEDA E FUNDIÇÃO DE VILA RICA
Cargo Função
Provedor Chefe geral. Respondia direto ao rei
Escrivão Anotava tudo. Se não tá no livro, não aconteceu
Tesoureiro Guardava ouro e moedas
Ensaidor Químico da época. Dizia o quilate
Fundidor Operava os fornos
Abridor de cunhos Artista. Gravava os desenhos no aço
Moedeiro Operário da marreta. Batiam moeda o dia todo
Fiel da balança Pesava tudo com balança de precisão
Escravos Maioria da mão de obra braçal: fogo, laminador, limpeza
CONCLUSÃO: O LEGADO DAS CASAS DA MOEDA DO BRASIL
A história das Casas da Moeda no Brasil Colônia é, no fundo, a história do ouro e do poder. Nascidas da necessidade de controlar a riqueza das Minas, essas estruturas moldaram a economia, a política e até a geografia do país.
Começaram itinerantes, mudando de Salvador para o Rio, do Rio para Recife, até se fixarem em Vila Rica no auge do ciclo do ouro. Ali, no prédio que hoje é o Museu do Conto em Ouro Preto, o Brasil produziu mais moedas que Portugal. Cada dobrão de 20.000 réis que saía daqueles balancins carregava o peso do quinto, do suor escravo e da fiscalização implacável da Coroa.
Depois de 1735, só o Rio de Janeiro manteve a função de cunhar moeda. As outras viraram Casas de Fundição, depois fecharam. Mas o modelo ficou: centralizar a produção monetária foi essencial para organizar as finanças da Colônia e, mais tarde, do Império e da República.
Das oficinas holandesas de 1645 até a Casa da Moeda do Rio que herdamos hoje, o que se vê é uma briga constante entre controle e contrabando, entre lei e ganância. As fábricas falsas da Serra da Moeda, as devassas, a pena de morte para moedeiro falsário — tudo mostra o quanto a moeda era assunto de Estado.
Hoje, a Casa da Moeda do Brasil continua no Rio, com mais de 330 anos de história. Mas sua origem está na poeira do ouro, nos cunhos gravados à mão e nos dobrões que nunca circularam no comércio miúdo porque seguiam direto para os cofres de Lisboa.
Entender essas casas é entender que moeda nunca foi só dinheiro. Foi instrumento de dominação, causa de revoltas e símbolo da riqueza que construiu — e esgotou — o Brasil colonial. O ouro passou, mas o sistema que ele criou ainda ecoa na forma como o país lida com imposto, fiscalização e valor.
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PROFESSOR JOÃO FERREIRA – ESCRITO EM 16 DE JULHO DE 2026